Depois de duas semanas de recesso, a CPI da Covid-19 retomou os trabalhos com o depoimento do reverendo Amilton Gomes de Paula, presidente da ONG Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), nesta terça-feira (3).

Ele foi apontado por um representante da empresa Davati Medical Supply como intermediador entre o governo federal e fornecedores de vacinas. O religioso negou ter contatos dentro do Ministério da Saúde ou mesmo no Planalto e disse ter sido usado nas negociações.

Outros depoentes na CPI da Covid foram a diretora técnica da Precisa Medicamentos, Emanuela Medrades, o policial militar de Minas Gerais e representante da empresa Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominghetti; o empresário Carlos Wizard; o deputado federal Luis Miranda; o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS); o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Elcio Franco; o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga; a médica Nise Yamaguchi; o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas; a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro; e os ex-ministros da Saúde Eduardo PazuelloLuiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, além do ex-chanceler Ernesto Araújo.

Lupa verificou algumas das declarações de Amilton Gomes de Paula. A reportagem contatou a Senah a respeito das checagens e irá atualizar essa reportagem assim que tiver respostas.

Eu não conversei com nenhum governador [para oferecer vacinas]. Eu não conversei com nenhum prefeito. Eu não conversei com nenhum município

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

FALSO

A Senah enviou uma carta para governadores, prefeitos e secretários de Saúde oferecendo vacinas contra a Covid-19. Reportagem da Agência Pública de 1º de julho mostra uma cópia do documento com a proposta, assinado pelo reverendo Amilton Gomes de Paula, que preside a entidade.

Foram ofertadas vacinas da Janssen e da AstraZeneca no valor de US$ 11 por dose, com entrega prevista para até 25 dias. Segundo a mensagem, os imunizantes já estariam com a empresa Davati Medical Supply, que estaria oferecendo a vacina por meio de um “acordo humanitário” com a Senah.

Entre as cidades que receberam a carta está Ijuí, no Rio Grande do Sul. A mensagem chegou no dia 23 de março, com o título “Carta humanitária”, em papel timbrado da Senah e a informação de que se tratava de um “lote emergencial”. Outras prefeituras da região Sul do país também teriam sido procuradas, segundo a Agência Pública. A negociação com o município de Ijuí não foi concluída.

Em 25 de fevereiro deste ano, o reverendo Amilton também enviou um email com uma proposta de venda de vacinas para a Amac (Associação dos Municípios do Acre), que representa 22 prefeituras no estado. Uma cópia da mensagem foi reproduzida em uma reportagem publicada pela CNN Brasil nesta terça-feira (3): “Ao cumprimentar Vossa Senhoria, encaminho-vos Carta de Informações pertinentes no tocante à aquisição da Vacine (sic) AstraZeneca, com viés humanitário”, escreveu Amilton, usando o endereço presidencia@portalsenah.org. O texto foi enviado para Marilice Maffi, secretária-executiva da Amac.

De acordo com a CNN, as tratativas da Senah com a associação continuaram e, em 26 de março, a Amac enviou uma carta de intenções de compra de doses da vacina da Janssen. A mensagem teria sido então encaminhada pela Senah a Cristiano Carvalho, representante da Davati Medical Supply no Brasil – a empresa seria a vendedora do imunizante. Carvalho disse que só poderia fornecer doses da AstraZeneca e o negócio não foi concluído.

[O vídeo mostrado na CPI] É de um projeto que nós lançamos em 2019 (…) É um projeto de moradia, nós íamos colocar 10 mil casas com parceria. Não é dinheiro do governo, é uma aliança e um projeto que a gente tem com o Banco Mundial

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

FALSO

De todos os 566 projetos listados pelo Banco Mundial no Brasil, apenas 8 envolvem ações na área de construção de moradias. Destes, somente 1 estava ativo em 2019: o Programa de Melhoria da Qualidade da Vida e da Governança Municipal de Teresina, feito, como o nome indica, com a prefeitura de Teresina (PI).

O projeto, no qual o Banco Mundial investiu US$ 31 milhões, foi iniciado em 2008, e não em 2019, e envolve também ações nas áreas de proteção social, meio ambiente e transporte urbano. Não há nenhum indicativo no projeto de que a Senah teve qualquer participação na sua implementação.

A resposta de Amilton foi dada após a exibição de um vídeo na CPI em que ele faz um discurso sobre projetos que “virão ao município de Monte Mor”, no interior de São Paulo. O município fica a 2.000 quilômetros da capital piauiense.

A Senah surgiu inicialmente como instituto de ensino superior, tendo como nome fantasia Faculdade Batista do Brasil

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

FALSO

Não há qualquer registro da Faculdade Batista do Brasil no Cadastro Nacional de Cursos e Instituições de Educação Superior do MEC (Ministério da Educação). O nome da faculdade não aparece no cadastro de instituições de ensino superior, tampouco na lista de cursos de graduação ou de especialização. Também não foram encontrados registros de nenhuma faculdade com esse nome entre as IES extintas. Vale pontuar que toda instituição de ensino superior precisa ter autorização e cadastro no MEC para funcionar.

O site oficial da instituição citada pelo reverendo está inativo e aparece apenas como arquivo digital na plataforma Wayback Machine, repositório que mantém um histórico de páginas da internet. Ao navegar pela versão arquivada em 2016, é possível notar que a faculdade oferecia cursos de graduação, mestrado e até doutorado em teologia. Não foram localizados perfis dessa faculdade nas redes sociais.

Em julho, uma checagem feita pelo Coletivo Bereia, grupo de jornalistas que analisa a veracidade de conteúdos divulgados em ambientes digitais religiosos, mostrou que a Faculdade Batista do Brasil não é sequer conhecida por organizações batistas no país.

O que existe de fato é a Faculdade Batista Brasileira (FBB), sediada em Salvador (BA), reconhecida pelo MEC como instituição de ensino superior desde 1999. Essa instituição não tem relação alguma com Amilton ou com a Senah.

[A Senah] fomenta a conscientização no combate à Covid-19 e a suas eventuais prevenções, por meio da divulgação de folders explicativos em nossas redes sociais e no site da organização, reafirmando a importância do uso de máscara, do distanciamento social e da higienização das mãos especialmente com o uso frequente do álcool em gel

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

FALSO

A Senah não divulgou em seu site ou em suas redes sociais folders falando sobre a importância do uso da máscara e de medidas de distanciamento social durante a pandemia da Covid-19.

site da organização, que saiu do ar durante o depoimento, tem poucos conteúdos publicados em 2020 e 2021. Os textos divulgados neste ambiente que mencionam a pandemia falam sobre a doação de cestas básicas (veja aqui, aqui e aqui). Todas as doações mencionadas ocorreram em 2020, nos meses de abril e maio.

A Senah tem um perfil no Facebook, porém também não realiza publicações constantes —a última atualização ocorreu em março de 2020.

Naquela ocasião, a organização postou uma nota comunicando que eles adiariam todos os eventos já programados até o dia 30 de abril daquele ano por conta da Covid-19. “Em breve informaremos as novas datas dos referidos eventos”, escreveu. Durante a pandemia, o perfil não publicou folders falando sobre medidas de prevenção contra a Covid-19, como uso de máscaras, distanciamento social ou higienização das mãos.

Nunca recebi doação

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

INSUSTENTÁVEL

O site da Senah indica que seus apoiadores podem realizar uma doação para a organização. Ele sinaliza que, para realizar uma transferência bancária, é necessário selecionar o nome da campanha para a qual se deseja doar e preencher os dados bancários da “Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos” (Senar) — nome pelo qual a Senah era conhecida anteriormente.

Não foi possível localizar nenhum relatório que indique que o valor doado realmente irá para a campanha escolhida pelo doador. Não é possível afirmar que ele, de fato, recebeu doações, mas é certo que ele solicita doações para sua instituição.

Eu não sou filiado [ao PSL]. Eu já pertenci. Já fui filiado

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

VERDADEIRO

A base de dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) indica que o reverendo Amilton Gomes de Paula está, atualmente, desfiliado do PSL, partido que elegeu o presidente Jair Bolsonaro em 2018. Ele permaneceu filiado ao partido por pouco mais de dois anos, entrando em janeiro de 2019 e saindo em abril de 2021. Ele não informou o motivo da saída para o TSE.

Durante a CPI da Covid, Amilton também informou que teria participado da campanha de Bolsonaro de 2018. Imagens divulgadas na imprensa mostram o reverendo ao lado do senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente.

Não me lembro de ter dito ou escrito dentro desse contexto para o Dominghetti [sobre a mensagem que indicaria que Michelle Bolsonaro estaria ‘no circuito’]. Não fui eu que escrevi isso

Amilton Gomes de Paula

Em depoimento na CPI

VERDADEIRO

Quem escreveu que a primeira-dama Michelle Bolsonaro “está no circuito agora” foi o policial militar de Minas Gerais e representante da empresa Davati Medical Supply, Luiz Paulo Dominghetti, durante conversa com um interlocutor identificado como “Rafael Compra Deskartpak”. Na troca de mensagens, registrada em 3 de março e enviada à CPI, eles falavam sobre a possibilidade de uma reunião no Ministério da Saúde intermediada por Amilton.

Nas mensagens, Dominghetti indica que o reverendo teria entrado na negociação por ser próximo da família Bolsonaro. “Michele (sic) está no circuito agora. Junto ao reverendo. Misericórdia”, escreveu. Durante a CPI, Amilton negou conhecer pessoalmente a primeira-dama ou o presidente.